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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"






Guiné > Região de Gabu > Cheche > Rio Corubal > "A jangada da morte">  s/d 

© Foto de José Azevedo Oliveira, com a devida vénia / Ediçã0: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O maior número de vítimas, de uma só vez, no TO da Guiné, aconteceu em 6 de fevereiro de 1969 (*), na sequência da Op Mabecos Bravios. 

Temos cerca de 4 dezenas referências com este descritor, o desastre de Cheche. Morreram 2 furriéis milicianos, 7 cabos, 37 soldados e 1 civil, pertencentes a duas subunidades, a CCAÇ 1790 e a CCAÇ 2405 (**).

Desastre na Guiné": a  notícia chegou tarde às redações dos jornais. O "Diário de Lisboa", que era vespertino, conotado com a "oposiçáo democrática", deu-a em título de caixa alta só na 2ª edição, dia 8 de fevereiro de 1969, que era um sábado. Fez ainda uma 3ª edição.  E limitou-se a reproduzir a "peça" transmitida pela agência oficiosa L [Lusitânia], com proveniência de Bissau e data  8 de fevereiro... 

(...) "Na passagem do rio Corubal, na estrada para Nova Lamego, afundou-se a jangada que transportava uma força militar, havendo a lamentar, em consequência deste acidente, a morte, por afogamento, de 47 militares.(...) 


2. Já "quase tudo" se disse mas ainda fomos descobrir, nos livro da CECA (2015), mais algumas referências ao "desastre do Cheche", que transcrevemos:


(...) Dispositivo (Zona Sul)

Em 08Jun68 é elaborada a Directiva n° 1/68 com vista à remodelação do dispositivo na região do Boé. 

Determina a transferência do aquartelamento de Madina do Boé para local mais adequado, na região do Ché Che. 

Ordena a recolha imediata a Madina do Boé do Destacamento de Béli, devendo ser destruídas as instalações e material que não fosse recuperável. 

No ponto nº 3 refere:

"O CTIG e o CZACVG procederão imediatamente a um reconhecimento da região do Ché Che, em ordem a escolher o local do novo aquartelamento; deverá satisfazer às seguintes condições:

- Situar-se em "área-chave" da região de Ché Che, que permita o lançamento de acções dinâmicas na região do Boé e na margem norte do rio Corubal, e, se possível, que dê garantias de segurança à passagem deste rio no Ché Che (jangada);

- ter uma boa pista de aterragem para aviões "Dakota";

- oferecer boas condições de defesa do aquartelamento, que deve ser planeada com vista a transformar-se numa grande base operacional. "


 CECA (2015), 
pag. 175


(...) Operação "Mabecos Bravios" - 02 a 07Fev69

Forças da CCaç 1790, CArt 2338 (-), CCaç 2383, 2403, 2405 e 2436, CArt 2440, 1 GComb/CCaç 5, Pel Mil 161, Pel AMetr "Daimler" 1258 (...), Pel Sap do BCaç 2835, com APAR (apoio aéreo), efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Madina do Boé - Nova Lamego, L3.

Accionada min a A/C  no cruzamento de Beli, sem consequências; detectadas e destruídas 2 minas A/C  entre Ché Che e Canjadude. Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências. No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a  jangada que transportava forças de segurança da retaguarda provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 Milícias).



CECA (2015), pág. 353

(...) Em 19fev69, através de Directiva n.º 16/69, foi entregue ao CDMG e ao CZAGCV a realização da Operação no rio Corubal:

"1. Confirmando a ordem verbal dada em reunião de Comandos, determino a realização de uma operação no rio Corubal, com o fim de recuperar os corpos dos militares mortos no trágico acidente de 6fev69, que se encontram à superfície das águas.

2. A operação deve realizar-se na base do helitransporte de uma vaga de "Fuzileiros Especiais",  fortemente apoiada por meios aéreos.

3. Os corpos devem ser agrupados e enterrados no local, devendo as campas ser assinaladas com cruzes de ferro.

4. Desejo ser helitransportado ao local, conjuntamente com um capelão para assistir à cerimónia fúnebre, e colocar nas campas e lançar ao rio coroas de flores com a legenda "A Pátria agradecida". [...]". (***)

CECA (2015), pag. 317


Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pp. 175, 317, 353.



2. Falta-nos, entretanto, o  testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Dinis, da CCAÇ 2338, então comandante da força que guarnecia o destacamento de Cheche.


Recorde-se aqui um excerto do testemunho do então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, na altura cmdt da infortunada CCAÇ 1790, que sofreu o maior número de vítimas:

(... ) Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
[, cor inf Hélio Felgas,] não permitiu que as duas Companhias [, CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405, ] permanecessem no Ché Che para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial, que durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano comandante do Destacamento estacionado no Ché Che [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69] ". (...) (****)


Ainda continua por realizar o prometido encontro, há anos, do nosso editor Luís Graça com o ex-alf mil José Luís Dumas Diniz (da CART 2338), responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé.

Uma peça fundamental para eventual encontro será ou seria o ex-alf mil trms, Fernando Calado, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), membro da nossa Tabanca Grande, e meu contemporâneo da Guiné (estivemos juntos, em Bambadinca, entre julho de 1969 e maio de 1970), e amigo do Dumas Diniz.

Foi o Fernando Calado que me pôs em contacto com o José Luís Dumas Diniz, que vivia a maior parte do tempo em Coruche. Infelizmente o Fernando morreu o ano passado, em 24 de junho.

Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

_____________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de  6 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22974: In Memoriam (426): Paz para a alma de todos os nossos camaradas que morreram no desastre de Cheche, faz hoje 53 anos...Foram 47 vidas ceifadas na flor da idade... Estupidamente!... (Virgílio Teixeira, ex-alf mil SAM, CCS / BCAÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)(*) 

(***) No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  conseguir resgatar  os restos mortais de 11 militares (irreconhecíveis), seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes.

Náo sabemos se o comandante-chefe chegou a estar presente, como era sua intenção.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27664: In Memoriam (570): Carlos Alberto Machado de Brito (1932-2025), cor inf ref, 1º cmdt da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, jun 1969/mar 1971): vivia em Braga, e foi comandante da GNR, comando territorial de Braga - II (e última) Parte

Foto nº 1 > Carlos Alberto Machado de Brito (1932-2025).

cor inf ref, 1º comdt CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71). Na foto, aos 37 anos, na estrada Xime-Bambadinca. 

A CCAÇ 2590/CCAÇ 12 sempre foi uma família (éramos umas escassas 6 dezenas de graduados e especialistas metropolitanos, a que se juntaram depois mais 100 praças, do recrutamento local,  98% fulas, em junho de 1969, no CIM de Contuboel). Diversos camaradas da CCAÇ 12 são membros da Tabanca Grande, de longa data.  Por todas as razões, o "nosso capitão Brito"   também cá faz falta. Tem já uma dúzia de referências. Tomo a liberdade de o apresentar à Tabanca Grande, inumando-o simbolicamente à sombra do nosso poilão, no lugar nº 911, no talhão dos camaradas e amigos da Guiné que "da lei da morte já se libertaram". Até sempre, comandante!...(LG)

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº  2 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Comando e CCS/BCAÇ 2852 (1968/70)  >  A
 equipa de futebol de oficiais de Bambadinca que acabara de jogar contra uma equipa de sargentos.

Na segunda fila, da esquerda para a direita, de pé:

  •  o alf mil Beja Santos (cmdt do Pel Caç Nat 52, 1968/70);
  • o major Cunha Ribeiro, 2º cmdt do BCAÇ 2852 )já falecido, como coronel);
  • o alf mil médico, David Payne Pereira (já falecido, era um conhecido psiquiatra);
  • o cap inf Carlos Alberto Machado de Brito (cor inf ref) (1932-2025), comandante da CCAÇ 12;
  • e ainda o alf mil at int Abel Maria Rodrigues, também da CCAÇ 12.

Na primeira fila, da esquerda para a direita:
  • um militar que ainda não conseguimos identificar;
  • alf mil cav  José António G. Rodrigues, da CCAÇ 12 (já falecido), 
  • o António Carlão, da CCAÇ 12 (já falecido) 
  • e o Ismael Augusto (CCS); (o Fernando Calado, alf mil trms, também fazia parte da equipa mas fracturou um braço, não aparecendo por isso na foto).

O major Cunha Ribeiro  tinha  substituido,  em setembro de 1969,  o major Viriato Amílcar Pires da Silva, transferido por motivos disciplinares. 

Foto (e legenda): © João Pedro Cunha Ribeiro (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Foto nº 3



Foto nº 3A 




Foto nº  3B

Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > c. 1970 > Não, não é uma sessão de cinema, no refeitório das praças (ou sala de convivio das praças, a avaliar pela mesa de pingue-pongue)... É um simples projeção de "slides" ou diapositivos... Tudo servia para ajudar a passar o tempo, embora não fosse habitual esta mistura de "classes" (oficiais, sargentos e praças, ou como  eu gosto de dizer, com graça, "nobreza, clero e povo")... 

Recorde-se que o nosso exército era "classi(ssi) sta" e, em aquartelamentos como o Bambadinca, com razoáveis e desafogadas instalações, a regra era a da estratificação socioespacial, ou seja, nada de misturas...

A esta sessão  de projeção de "slides!" ou diapositivos assistiram,  no refeitório das praças, pelo menos dois capitães (a olhar para o seu lado direito)... O primeiro era o comandante da CCS/BCAÇ 2852, o cap inf Manuel Figueiras... O segundo era o cmdt da CCAÇ 12, cap inf Carlos Brito (Foto nº 3A).

O "artista principal", neste caso,  é o alf mil at cav José António G. Rodrigues, natural de Lisboa, e já falecido, comandante do 4º Gr Comb da CCAÇ 12.

 Em segundo plano, por detrás dos capitães, o alf mil op esp/ranger Francisco Magalhães Moreira, comandante do 1º Gr Comb da CCAÇ 12, e também 2º cmdt da companhia. Nunca maios soube dele, dizem-me que seguiu a carreira das armas e ainda terá feito uma comissão de serviço em Angola. 

O seu Gr Comb, incontestavelmente, era o melhor. Ele tinha talento, carisma e treino para comandar homens no mato. O capitão confiava nele e delegava-lhe missões, porque sabia que ele era o melhor de todos nós. Só se delega a quem é competente e empenhado. Dos outros 3 oficiais (e sem ofensa para nenhum deles, e dois já morreram),  podia-se dizer que eram competentes mas não empenhados, ou então eram empenhados mas menos competentes. (Afinal, nem toda a gente tem jeito para a guerra...).

 De facto, o "projecionista", à civil, era o alf mil cav José António G. Rodrigues... Devia ser também o "dono" dos diapositivos, cujas caixas, de plástico, são visíveis à frente do projeto (Foto nº 3B).

Nessa época, este material fotográfico era tratado na "nossa inimiga"... Suécia, principal aliada, no mundo ocidental, do PAIGC a aquem forneceu importante apoio (político, humanitário, financeiro, logístico...). Era de lá,  da terra dos "vikings" (e das loiras de olhos azuis do nosso imaginário febril!),  que vinham as mágicas caixinhas com os "slides"... Não sei quanto custavam por unidade...

Pormenor interessante: devido ao excesso de calor e humidade do ar, usava-se uma ventoínha para "refrigerar" o ar à volta do projetor...

Mas agora: que raio de "slides" seriam estes para atrair a atenção de tanta gente, oficiais, sargentos e praças ?!... Possivelmente, "recuerdos" das férias do nosso alferes Rodrigues... A ser assim, esta sessão só pode ter acontecido já no 2º semestre de 1970, ao tempo do BART 2917... 

Mas, digam-me lá, quem estava interessado em saber onde e com quem passou férias, na metrópole, o nosso alferes Rodrigues ?... Ainda não havia gajas de biquini no Algarve... E as férias do Rodrigues só poderiam ter sido passadas na metrópole, porque nessa época nenhum militar, em princípio,  podia ter passaporte para ir passar férias ao estrangeiro no "intervalo" da guerra (a licença de férias era de 30/35 dias)...  

Ao lado do alf Rodrigues, reconheço o alf at inf Abel Rodrigues, comandante do 3º Gr Comb da CCAÇ 12, e nosso grão-tabanqueiro (nasceu no mesmo dia e ano que eu, 29/1/1947; é transmontano de Miranda do Douro; acabei de lhe telefonar a dar a triste notícia da morte do nosso capitão...  

Na ponta direita, o nosso 1º cabo escriturário e acordeonista, Eduardo Veríssimo de Sousa Tavares, também já falecido.

Talvez o Abel se lembre do teor dos "slides", sobre os quais tenho imensa curiosidade... (Esqueci-me de lhe perguntar; infelizmente, também não tenho qualquer contacto com familiares do meu malogrado camarada José António G. Rodrigues, com quem alinhei no mato muitas vezes, a par dos outros alferes, o Moreira e o Carlão, com este tive o meu infeliz batismo de fogo, em 7 de setembro de 1969; como prémio, e por ser casado, com a mulher a viver com ele em Bambadinca, teve a sorte grande: foi para a equipa de reordenamentos de Nhabijões; era oriundo do CSM).



Foto nº 4 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > c. 2º semestre de 1969 >  Messe de sargentos > Almoço de "confraternização" entre oficiais e sargentos da CCAÇ 2590/CCAÇ 12: ao centro, o cap inf Carlos Brito, à civil... .

Do lado direito, em primeiro plano o fur mil op esp / ranger Humberto Reis, e a seguir o alf mil cav, já falecido, José António G. Rodrigues; do lado esquerdo, em primeiro plano, o fur mil trms José Fernando Gonçalves Almeida ( seguido de outro furriel, de cuja identidade não tenho a certeza: Joaquim Fernandes ou Luciano Almeida ?), e ainda do 2º srgt inf José Martins Rosado Piça e do 1º srgt cav Fernando Aires Fragata (que depois iria frequentar a Escola Central de Sargentos, em Águeda).

A CCAÇ 2590 passou a designar-se CCAÇ 12 a partir de 18 de janeiro de 1970, ainda no tempo do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70)... 

Ainda a propósito da foto, era a cerveja Cristal que estava na moda..E o petisco, se bem me parece, incluia ostras.

Naturalmente que os sargentos não frequentavam (pelo regulamento) a messe de oficiais que era ali ao lado. Mas o cap  Brito dignava-se, de vez em quando (e sobretudo no princípio) aparecer na messe de sargentos que era muitíssimo mais animada, mesmo sem garotas...

O bar e a messe de sargentos de Bambadinca, no meu tempo (julho de 1969/março de 1971) tinham  uma certa tradição de hospitalidade. Recebiamos gente de fora, estavamos abertos aos vizinhos do lado (messe de oficiais, embora o inverso não fosse verdadeiro)... E sobretudo havia uma bom espirito de camaradagem entre operacionais e não operacionais. a nível de sargentos (CCS/BCAÇ 2852 e depois BART 2917, CCAÇ 12 e outras subunidades adidas). Fazíamos festas conjuntas (por ex., Natal, aniversários), havia preocupação com a qualidade da comida, havia cantorias até às tantas da noite... Bebia-se
 O bar era bem recheado.

Foto do álbum do Arlindo Roda (ex-fur mil at inf, 3º Gr Comb, CCAÇ 12, 1969/71)



Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > Cambança, descontraída.  de uma bolanha, na região do Xime, no decurso de uma operação que não conseguimos identificar.

A foto (aliás, um diapositivo) deve ter sido tirada ainda em 1969, no final da época das chuva. Infelizmente não temos as legendas das magníficas imagens que o Arlindo Roda, que vive em Setúbal, teve a gentileza de nos mandar, através do Benjamim Durães (CCS / BART 2917, 1970/72). Falei com ele, finalmente, ao telefone há poucos meses, depois do nosso último encontro há mais de 30 anos.

Em primeiro plano, vê-se o 1º cabo Manuel Monteiro Valente, que viria a ser ferido por estilhaços de morteiro em janeiro de 1970 (Op Borbeleta Destemida)...

Em 2º plano, vê-se o fur mil at inf Roda, o alf mil op esp / ranger Francisco Moreira (comandante do 1º Gr Comb). Atrás deles, descortinam-se ainda as cabeças do fur mil op esp / ranger Humberto Reis e o fur mil at inf António Branquinho (já falecido). 

O cap Brito frequentemente alinhava no mato com a malta, sobretudo em operações de maior responsabilidade e risco, a nível de sector. Apesar dos seus já 37/38 anos de idade... E nós, com 22... Tínhamos outra pedalada naquele tempo, com aquela idade.

 
Fotos: © Arlindo T. Roda (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Crachá da CCAÇ2590 ("Excelente e Valorosa) e da CCAÇ 12 ("Sempre Mais Além")
1969/71).   Design: Tony Levezinho. Cortesia do autor (2006).


1. Declaração de conflito de interesses:

Este e o anterior In Memoriam (*), não assinados como a  grande maioria dos postes publicados pelos editores LG e CV, são da minha lavra. Estive no CTIC às ordens do então Cap Brito. 

O único louvor que tive na tropa foi-me atribuído do, recomendado ou sugerido por ele. O louvor é, formalmente,  do comandante do BART 2917, por quem nunca morri de amores... 

Foi coisa que nunca mostrei a ninguém (a não ser aqui no blogue há muitos anos).  Nem nunca utilizei, para efeito nenhum, na minha vida civil e professional. E no início até tinha algum pudor,   pelo evidente exagero dos encómios.

Pensando bem, deveria ter razões para sentir-me honrado pela distinção... Só se fala, é verdade, das minhas qualidades (que também escondem defeitos), o que  é sempre lisonjeiro. 

De qualquer modo, não há, no teor do louvor, nada que me envergonhe como português, cidadão, homem e militar.

E mais acrescento: nem eu nem o meu capitão ficámos a dever favores um ao outro. Sendo eu de armas pesadas de infantaria, e estando numa companhia de intervenção ( e não de quadrícula), depressa tive que  esquecer tudo o que aprendi no CISMI, em Tavira. 

Fui rapidamente  "promovido a atiruense". Deram-me uma G3 e passei a ser o "pião de nicas" da companhia... tapando todos os buracos no comando de secções dos 4 Gr Comb...

Afinal, "não era mais do que os outros", meus camaradas e bons amigos, a começar pelos que dormiam no mesmo quarto...

Por outro lado, eu e o capitão estávamos,  política e ideologicamente,  em campos opostos: eu era, desde os meus 15 anos, um jovem do "reviralho", do "contra" e estava recenseado nos cadernos eleitorais aquando das eleições para a Assembleia Nacional em 26 de outubro de 1969.

Fui,  aliás,  dos poucos militares em Bambadinca a poder exercer o direito de voto. Eu, o meu capitão, e mais um 1º cabo (cujo nome não fixei). Nem sequer os sargentos do quadro estavam recenseados! ... Ou não votaram, o Piça, o Videira...

Patriótico paradoxo. já aqui escrevi em tempos: um português podia morrer pela Pátria mas podia não ter direito de voto nas eleições para a Assembleia Nacional...  

Eu sei que votei em branco, o meu capitão seguramente que votou no  candidato da União Nacional que representava o círculo eleitoral da Guiné, o infortunado James Pinto Bull (Bolama, 15 de Julho de 1913 – Rio Mansoa, 26 de Julho de 1970).

O então cap Brito era minhoto, dizia-se que já tinha feito uma primeira comissão na Índia (o que não posso confirmar), era católico, política e ideologicamente conservador e "situacionista"...

Nunca fez, em contrapartida, o mais pequeno reparo em relação à minha pessoa e à minha posição contra a guerra. Aliás, nunca falámos de "política"... E mais: confiou-me, no final da comissão, a tarefa (ciclópica) de fazer a história da unidade. Eu tinha dado como profissão a de jornalista (da imprensa regionla), mesmo nunca tendo tido carteira profissional,

Já agora registo a seguir os nomes dos outros graduados da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 que foram louvados no final da comissão, a começar pelo próprio capitão, 2 alferes mil, 1 sargento QP e 4 furriéis mil  (além de 19 praças):
  • Carlos Alberto Machado Brito, cap inf, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 (Louvor do Brigadeiro Cmdt Militar do CTIG, em 01.06.71):
  • Abel Maria Rodrigues, alf mil at inf / CCAÇ 12  (Louvor do cmtd CCAÇ 12, em 13.03.71);
  • Francisco Magalhães Moreira, alf mil op esp / CCAÇ 12  (Louvor do cmdt BART 2917,  em 12.03.71);
  • José Martins Rosado Piça, 2º srgt inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917 em 11.03.71);
  • António Fernando R. Marques, fur mil at inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt  CAOP 2 em 04.05.71);
  • Humberto Simões Reis, fur mil op esp /CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917,  em 12.03.71);
  • José Luís Vieira Sousa, fur mil at inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917,  em 25.02.71);
  • Luís Manuel da Graça Henriques, fur mil arm pes inf / CCAÇ 12 (Louvor do cmdt BART 2917,  em 25.02.71). 


Louvor. Reprodução da página 12 da minha caderneta militar... e onde se faz referência ao trabalho de elaboração da história da unidade

Foto (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edição:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. O "making of" da história da CCAÇ 12 merece ser aqui recontado, até como forma de homenagem ao "nosso capitão Brito":


(i) escrita por mim (LG), contou com a cumplicidade e a colaboração de vários camaradas, milicianos, incluindo um sargento do quadro, infelizmente já falecido , o 2º srgt Piça ("o Grande Piça, para os amigos!"), que me chamava , com piada, o "Soviético" ( só por ser do " contra");

(ii) oficialmente, o documento não tem (nem podia ter) autor, mas é unanimemente reconhecido que foi escrita por mim;

(iii) mais, foi-me  expressamente incumbida, a sua elaboração, pelo comandante da companhia, o afável capitão inf Carlos Brito;

(iv) o então capitão Brito (em vésperas de ser promovido a major, se não mesmo já major) não autorizou a sua divulgação, nem muito menos o comando do batalhão de quem estávamos hierarquicamente dependentes, o BART 2917, a partir de junho de 1970 até fevereiro de 1971); alegava ter informação "classificada" (o que era inteiramente verdade);

(v) um versão, dactilografada e impressa à luz do dia, a stencil, na secretaria da companhia, foi discretamente distribuída aos alferes e furriéis milicianos (mesmo assim, não sei se a todos...), numa tiragem necessariamente reduzida, na véspera da partida; como era sabido, os quadros metropolitanos e os especialistas da CCAÇ 12, num total de 60, eram de rendição individual;

(vi) em 1994, quando reencontrei o meu antigo capitão, na altura já cor inf ref,  dei-lhe conta desta "deslealdade" que cometi em março de 1971 (a única, em relação a ele, que julgo ter cometido).

Esta pequena homenagem que lhe faço é já tardia, é post-mortem. Sempre quis trazê-lo para o blogue. Ele participou em diversos encontros da malta de Bambadinca de 1968/71. E, quando não podia, tinha sempre a cortesia de contactar o organizador, agradecer o convite e apresentar a competente justificação para a ausência. 

A CCAÇ 2590/CCAÇ 12 sempre foi uma família (éramos escassas 6 dezenas de graduados e especialistas metropolitanos, a que se juntaram depois mais 100 praças, do recrutamento local, todos 98% fulas, em junho de 1969, no CIM de Contuboel).

 Diversos camaradas da CCAÇ 12 são membros da Tabanca Grande, de longa data.  Por todas as razões, o "nosso capitão Brito"   também cá faz falta. Tem já uma dúzia de referências. Tomo a liberdade de o apresentar à Tabanca Grande, inumando-o simbolicamente à sombra do nosso poilão, no lugar no 911, no talhão dos camaradas e amigos da Guiné que "da lei da morte já se libertaram".

Até sempre, "capitão Brito", bom amigo e camarada!...LG


Foto nº 5


Foto nº 5A


Foto nº 5B

Esposende > Fão > 1994 > A primeira vez que a  malta de Bambadinca (1968/71), camaradas da CCAÇ 12, e outras subunidades adidas ao comando do BCAÇ 2852, mas também malta do BART 2917 (1970/72)... 

Este primeiro encontro foi organizado pelo António Carlão, já falecido (ao centro)


Na primeira fila, da esquerda para a direita: 

(i) fur mil MAR Joaquim Moreira Gomes (vivia no Porto, na altura(; 

(ii)  sold cond auto Diniz Giblot Dalot (empresário na área dos transportes, vivia em Aljubarrota, Prazeres,  ou em Samora Correia, não sei ao certo); 

(iii) um antigo escriturário da CCS/ BART 2917 (morava em Fão, Esposende); 

(iv) alf mil at  inf António Manuel Carlão (1947-2018) (casado com a Helena, comerciante, vivia em Fão, Esposende);

(v)  fur mil at inf Arlindo Teixeira Roda (natural de Pousos, Leiria; professor  reformado, vive em Setúbal; grande jogador de king e de lerpa, no nosso tempo, a par do Humberto Reis, e depois de damas, cuja federação portuguesa cofundou e dirigiu); 

(vi)  fur mil armas pes inf Luís [Manuel da ]  Graça [ Henriques]  (prof univ ref., fundador deste blogue, vive entre Alfragide / Amadora e Lourinhã, e com ligações também ao Marco de Canaveses, Quinta de Candoz); 

(vii) Arménio Monteiro Fonseca (taxista, no Porto, da empresa Invictuas, táxi nº 69, mais conhecido no nosso tempo como o "vermelhinha"); 

(viii) fur Mil José Luís Vieira de Sousa (natural do Funchal, onde vive, agente de seguros reformado).

Na segunda fila de pé, da esquerda para a direita: 

(ix) Fernando [Carvalho Taco]  Calado (1945-2025), ex-allf mil trms, CCS/BCAÇ 2852 (vivia em Lisboa, natural de Ferreira do Alentejo(;

(x) alf mil manutenção material, Ismael Quitério Augusto, CCS/BCAÇ 2852, 19698/70 (vive em Lisboa);

(xi)  fur mil at inf, António Eugénio Silva Levezinho [, Tony para os amigos, reformado da Petrogal, vive em Martingal, Sagres, Vila do Bispo]; 

(xii)  capitão inf Carlos Alberto Machado Brito [cor inf ref, vivia em Braga, tendo passado pela GNR] (1932-2025);

(xiii) camarada, de óculos escuros, que não sei identificar [diz-me o Fernando Andrade Sousa que se trata do Pinto dos Santos, ex-furriel mil de Operações e Informações, CCS / BCAÇ 2852, natural de Resende, já falecido];

(xiv) major Ângelo Augusto Cunha Ribeiro, mais conhecido por "major elétrico", 2º comandante do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (1926-2023) (vivia no Porto, era natural de Gondomar);

(xv) fur mil op esp / ranger, Humberto Simões dos Reis (engenheiro técnico, vive Alfragide / Amadora; era o grande fotógrafo da CCAÇ 12, a par do fur mil Arlindo Roda;  na foto, escondido, de óculos escuros); 

(xvi) camarada não identificado;

(xvii) alf mil cav,  José Luís Vacas de Carvalho, cmdt Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/71) (vive em Lisboa; natural de Montemor-o-Novo);

(xviii) alf mil at inf,  Mário Beja Santos, cmdt do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70 (vive em Lisboa, nosso colaborador permanente);

(xix)  Fur mil  at inf António Fernando R. Marques (DFA, natural de Abrantes, vive em Cascais, empresário reformado);: 

(xx)  Manuel Monteiro Valente (de bigode e de perfil, ex-1º cabo, 1º Gr Comb, CCAÇ 12, apontador de dilagrama, vive em Vila Nova de Gaia, organizou o convívio, em 2019, do pessoal de Bambadinca, 1968/71):

(xxi) Abel Maria Rodrigues (hoje bancário reformado, vive em Mirando do Douro, ex-alf mil at inf, 3º Gr Comb, CCAÇ 12); 

(xxii) alf mil op esp / ranger,  Francisco Magalhães Moreira (vive em Santo Tirso, se não erro; nunca mais o vi, desde este 1º encontro, em 1994; terá seguido a carreira militar; não é membro da Tabanca Grande, o que é pena(; 

(xxiii) Fur mil at inf,  Joaquim Augusto Matos Fernandes (de óculos escuros, engenheiro técnico, vive ou vivia no Barreiro; também não é membro da Tabanca Grande, infelizmente, mas não costuma falhar os encontros da malta de Bambadinca de 1968/71); 

(xxiv) 1º cabo Carlos Alberto Alves Galvão (o homem que foi ferido duas vezes numa operação, vive na Covilhã; não integra a Tabanca Grande; dizem-me que não comunicou à tropa as habilitações literárias que tinha, para não ir para o CSM); 

(xxv)  Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 12, vive na Trofa); 

(xxvi) e, por fim, 2º sarg inf Alberto Martins Videira (vivia em Vila Real,já falecido, tal como o outo 2º srgt, o José Manuel Rosado Piça, que vivioa em Évora).


Foto (e legenda): © Fernando Calado (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Nota do editor:

Último poste da série > 22 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27662: In Memoriam (569): Carlos Alberto Machado de Brito (1932-2025), cor inf ref, 1º cmdt da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, jun 1969/mar 1971): vivia em Braga, e foi comandante da GNR, comando territorial de Braga - Parte I

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26974: (Ex)citações (434): Uma questão de "falso pudor"... (José Teixeira, régulo da Tabanca de Matosinhos; ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70)



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Guileje > Simpósio Internacional de Guileje > 1 de março de 2008 > O Zé Teixeira com a Cadidjatu Candé (infelizmente já falecida), filha de Akiu Candé, o valente alferes de 2ª linha e comandante de milícias no Quebo, preso e assassinado com requintes de crueldade  pelo PAIGC depois do fim da guerra.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Desafiei o Zé Teixeira  ( e o Cherno Baldé) a comentar este posta P26971 (*):

Zé e Cherno:


Não sei se é pedir-vos muito... Mas gostava que comentassem a primeira parte do aerograma do nosso já saudoso Fernando Calado, que acabou de morrer há dias... Esteve comigo cerca de um ano em Bambadinca. E nestes últimos quarenta / cinquenta anos, apreciei melhor o seu fino trato.... E falou do nosso blogue, antes de morrer, segundo confidência da viúva, Rosa Calado.

A questão do pudor, entre diferentes culturas (e em diferentes épocas), é um tema apaixonante... Os médicos, desde Hipócrates, há 25 séculos que dizem "naturalia non turpa" (o que é natural não é vergonhoso)....

Há um "pudor natural", próprio dos primatas, mas o nosso é profundamente culturalizado. O Cherno lidou connosco, tugas, tu, Zé, lidaste com os fulas, tiveste talvez tanta ou mais intimidade do que eu com os nossos bons e leais amigos, que combateram (e alguns morreram) ao nosso lado... Mas não deixávamos de ser diferentes, e em posições de poder diferentes.

Mantenhas. Luís


2. Resposta, com data de ontem,  do Zé Teixeira (régulo da Tabanca de Matosinmhos, 
ex-1.º cabo aux enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70; é um histórico da Tabanca Grande, que integrou a partir de 14/12/2005; tem 443 referências no blogue; vive em São Mamede de Infesta, Matosinhos; é gerente bancário reformado) (**):


Luís.

Esta é uma questão do falso "pudor" ocidental português dos anos 60/70, enraizado num país tradicionalmente católico ao quadrado, "dono" de um (falso) Império espalhado pelos quatro cantos do mundo, como nos ensinavam na escola primária e na catequese.

Forçados a ir ao encontro de outras civilizações com diferente forma de gerir o respeito pelo corpo, naturalmente que estranhámos, e mais que isso, no caso da Guiné, não soubemos respeitar, o deles, mas refugiando-nos no nosso. 

Recordo a minha chegada a Ingoré e ser recebido por um coro de bajudas com o tronco nu a oferecerem os seus préstimos como "lavanderas". Foi um choque civilizacional e perturbador do meu eros, mais que isso, senti a falta de respeito dos soldados brancos "velhinhos" e até "periquitos", levados na onda do apalpar os seios das garotas, até com violência. E se elas eram lindas e bem jeitosas, o raio das bajudas!

Com não vi os jovens africanos a praticar tais gestos, entendi que devia respeitar a ordem das coisas (puritano? talvez!). Nunca tomei tal atitude, sem deixar de "brincar" dentro do respeito pelo "outro"/outra" a que vinha educado, como por exemplo, quando de serviço à enfermaria me aparece na fila para consulta uma jovem mulher linda e bem dotada.

- Bajuda linda e mama firme! - disse-lhe eu em jeito de piropo.

- Nega! A mim mulher grande!

- Hum, bo conta mintira. Bajunda linda e mama firme!

Então ela, a Binta, chega o peito junto da minha cara e esparrinha-a com leite do seu seio, para gáudio da mulherada que estava na fila.

Adaptei-me à realidade ao chegar ao Sul, mais propriamente a Mampatá do Forreá, onde por força das circunstâncias, vivíamos no meio da população, criei raízes de amizade que ainda hoje perduram, sempre no respeito mútuo pela forma de ser e estar de cada um. 

Fui algumas vezes tomar banho no riacho onde as mulheres lavavam a nossa roupa (um riacho que aparecia na época das chuvas), servindo-me de uma lata como chuveiro (banho à fula) e quantas vezes eram elas que me deitavam a água pela cabeça abaixo. Algumas estavam nuas e quando me viam chegar, nem sempre se tapavam, outras tapavam-se com um pano e eu normalmente estava de cações de banho e por vezes nu.

As nossas formas de ser e estar nunca foram impeditivas de uma boa relação, mas entendo bem a reação do Fernand Calado, como homem educado e respeitador que era. Por parte das bajudas, talvez mindjers garandi, foi uma atitude natural de quem se sentia à vontade, na sua forma de ver o corpo humano, sem os preconceitos ocidentais.

Zé Teixeira

terça-feira, 1 de julho de 2025 às 17:18:53 WEST

(Revisão / fixação de texto, título, negritos, itálicos: LG)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 1 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P26971: Humor de caserna (202): Dormir nu por causa do clima à noite e ter sonho "manga di bom": aerograma datado de Bambadinca, 1 de dezembro de 1969, dirigido à sua amada pelo nosso saudoso Fernando Calado (1945-2025)

(**) Último poste da série > 21 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26825: (Ex)citações (433): Ao pesquisar na Net informações relacionadas com o aquartelamento de Nova Sintra, li as crónicas do Fur Mil Joaquim Caldeira, da CCAÇ 2314, e numa delas com o título “Um tronco sem pernas e sem braços”, verifiquei que, pelas piores razões, eu era um dos protagonistas da história (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

terça-feira, 1 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26971: Humor de caserna (202): Dormir nu por causa do clima à noite e ter sonho "manga di bom": aerograma datado de Bambadinca, 1 de dezembro de 1969, dirigido à sua amada pelo nosso saudoso Fernando Calado (1945-2025)




Lisboa > Casa do Alentejo > 26 de Maio de 2007 > Fernando Calado (1945-2025) e Rosa Calado: um grande amor para a vida. 

Foto (e legenda): © Luís Graça (2007). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Lisboa > Casa do Alentejo > 26 de outubro de 2013  > Ismael Augusto (em segundo plano) e Fernando Calado: dois amigos para a vida. Partilharam o mesmo quarto em Bambadinca (1968/70).


Foto (e legenda): © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]-




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Comando e CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) >  c. setembro / outubro de  1969 >  A equipa de futebol de oficiais de Bambadinca que acabara de jogar contra uma equipa de sargentos.

Na fotografia aparecem, na segunda fila, da esquerda para a direita: de pé, o alf mil Beja Santos (cmdt do Pel Caç Nat 52, 1968/70), o alf mil médico, David Payne Pereira (já falecido em data anterior a 2006;  era um conhecido psiquiatra, deve ter ido em outubro/novembro de 1969 para o HM 241, em Bissau;  substituído em novembro pelo Joaquim Vidal Saraiva, cirurgião), o major Cunha Ribeiro (1926,-2023),  comandante do BCAÇ 2852 (chegou a Bambadinca em setembro de 1969), o cap inf Carlos Alberto Machado de Brito (hoje cor ref, vive em Braga), comandante da CCAÇ 12, e ainda o alf mil at int Abel Maria Rodrigues, também da CCAÇ 12.

Na primeira fila, da esquerda para a direita, um oficial miliciano  que ainda está por identificar, seguido de três alf mil nossos camaradas,  José António G. Rodrigues, da CCAÇ 12 (já falecido), o António Carlão, também da CCAÇ 12 (já falecido) e o Ismael Augusto (CCS /BCAÇ 2852). 

O Fernando Calado, alf mil trms, também fazia parte desta equipa mas fracturou um braço, não aparecendo por isso na foto de grupo (que é  do álbum do cor inf Cunha Ribeiro).

Foto: © João Pedro Cunha Ribeiro (2023). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A propósito da canícula destes dias de finais de junho (em que no passado domingo, ao início da tarde, se atingiu, em Mora, um novo e preocupante recorde de temperatura para este mês, no nosso país, 46,6° C,  valor próximo do máximo histórico absoluto registado em 2003, na Amareleja, 47,3º C), fui recuperar um aerograma do nosso saudoso Fernando Calado (Ferreira do Alentejo, 1945 - Lisboa, 2025), escrita para a sua namorada de então (e futura esposa e mãe dos seus dois  filhos, a Rosa Calado).  O aerograma é datada de Bambadinca, 1 de dezembro de 1969. 

O documento, já publicado em tempos no nosso blogue (*), merece ser recuperado melhorado  e reproduzido. Por diversos motivos:

 (i) é uma belíssima carta de amor;

 (ii) tem apontamentos sobre o nosso quotidiano e os "usos e costumes" na Guiné;

(iii) raramente, em tão poucas linhas de um aerograma, se dizia tanto sobre a vida " concentracionária" de um oficial miliciano ( e para mais de transmissões)  na Guiné;

 (iv) confirma o que todos nós experimentámos: o território tinha então (e continua a ter) um clima tropical húmido, caracterizado por temperaturas elevadas durante todo o ano e uma humidade relativa do ar extremamente alta, suscetível de causar desidratação e esgotamento, dificuldades respiratórias, problemas de pele, problemas de sono, doenças tropicais, stress físico e psicológico, conflitualidade grupal e interindividual, etc., problemas agravados pela guerra e a atividade operacional, o isolamento, a saudade, a par do elevado consumo de álcool, procura de sexo e outros comportamentos aditivos como o jogo.

Tomando hoje Bissau como ponto de referência, pode dizer-se que a estação das chuvas  é opressiva e de céu encoberto; a estação seca é húmida, com céu parcialmente encoberto; ao longo do ano,  o clima é sempre quente e húmido: em geral a temperatura varia de 19 °C a 35 °C e raramente é inferior a 17 °C ou superior a 38 °C. Dezembro e janeiro são meses mais frescos á noite. (Um europeu pode chegar a tiritar de frio, á noite, emboscado no mato, situação por que o Fernando nunca terá passado.)

Dormir nu à noite (com ou sem lençol) era relativamente normal, podendo todavia originar algumas "cenas pícaras" como a que  aqui é descrita (**)... 

Os guineenses (e nomeadamente os fulas) lidavam melhor com a nudez: os soldados da CCAÇ 12, do recrutamento local, por exemplo, tomavam banho nus, em grupo, no rio, sem complexos.  Os "tugas", naquela época, eram mais púdicos. 

 De qualquer modo, as nossas manifestações de recato e pudor não eram exatamente as mesmas... Eram fortemente modeladas pelas nossas diferentes  culturas (e não propriamente "civilizações").

No quartel de Bambadinca, que até tinha razoáveis instalações para  oficiais e sargentos, construídas de raiz pelo BENG 447,  os oficiais milicianos dormiam em quartos com três camas. Quartos individuais eram um privilégio de capitães e oficiais superiores.  Os sargentos dormiam em quartos para cinco. As praças metropolitanas em casernas sem condições. Os guineenses nas duas tabanca de Bambadinca com as suas famílias.

 O Fernando Calado (ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70) era um felizardo,  partilhava o quarto só com o Ismael Augusto (ex-alf mil manutenção), já que o João Rocha, ex-alf mil rec inf  [João Alfredo Teixeira da Rocha (Ilha de Moçambique, 1944 - Porto, 2018)] cedo deixou a companhia e o batalhão, por motivos disciplinares.

Inserir este aerograma na série "Humor de caserna" é também uma forma de homenagear um camarada e amigo como o Fernando Calado  de quem o Hernani Figueiredo disse recentemente (em mensagem de domingo, 29/06/2025, 17:26):
 
(...) "Encontrámo-nos no BC 5, em Campolide, antes da mobilização de ambos para a Guiné, ele no BCAÇ 2852 e eu no BCAÇ 2851.

"Desde há alguns anos que falávamos telefonicamente, especialmente na época natalícia. Partiu um bom homem, cidadão e amigo.

"Um eterno descanso em paz. Hernani Figueiredo." (...)

Como a maioria dos militares mobilizados para as guerras de África, o Fernando "escrevia o aerograma á (sua) namorada" (...)," quase diariamente, ao princípio da noite". Este foi um dos aerogramas que, em vida, ele quis partilhar connosco (*).


 Aerograma de Fernando Calado > Bambadinca, 1 de Dezembro de 1969

Meu amor:

Esta manhã, acordei sobressaltado, e reparei que estavam no quarto 2 bajudas (mulheres jovens da Guiné) que nos traziam a roupa lavada e que riam à gargalhada.

Estava nu, de barriga e outras coisas para cima, e transpirado como sempre.

Olhei para o camarada do lado que estava tão aflito como eu, e, à boa maneira europeia, tentei cobrir-me com um lençol que não tinha.

Perguntei então às bajudas porque se riam, tendo elas respondido o seguinte: 

− Alfero, sonho manga di bom hoje mesmo!

Para além do embaraço, pensei depois que afinal eu, um homem dito civilizado, tive uma postura naturalmente preconceituosa enquanto que elas, mulheres ditas primárias, tiveram uma postura naturalmente genuína, tendo expressado com rigor o que se tinha passado e rido com gosto a propósito de uma situação bastante caricata.

Passei a manhã a tratar da organização das transmissões de vários grupos operacionais escalados para operações e mais uma vez os comandantes de pelotão disseram-me que os rádios são uma merda e que, por vezes, não funcionam em situações de emergência.

Eu bem sei que me disseram sempre que os rádios são os mesmos da II Guerra Mundial mas, mesmo assim, custa-me anos de vida quando não se consegue fazer o contacto para evacuação de feridos.

Sinto assim, apesar dos meus 24 anos, que tenho uma responsabilidade excessiva e não me resta outra alternativa senão tentar ser o mais eficiente possível.

Antes do almoço, depois do segundo banho do dia, dirigi-me ao bar onde saboreei descontraidamente o meu whisky com água Perrier.

Gosto particularmente deste momento do dia. Diz-se aqui, que na Guiné existem apenas 2 coisas boas: o whisky com água Perrier e o avião para a Metrópole.

Chegou depois o meu colega de quarto 
[alf mil Ismael Augusto ] e a propósito de qualquer coisa que já não me recordo, ocorreu uma discussão de tal ordem que quase andámos ao murro.

Foi uma vergonha e fomos até ameaçados de ser castigados. São horas, dias, semanas, meses, anos a aturar-nos, sempre em tensão e dentro deste espaço ladeado por arame farpado.

Na verdade, penso que as discussões, a batota, os copos, o calor, os ataques, as emboscadas, etc. criaram uma cumplicidade tal, que tudo indica que seremos amigos do peito para toda a vida

Como se isso não bastasse, durante o almoço o médico 
[alf mil  Joaquim Vidal Saraiva  ]   veio comunicar-me que mais de metade dos soldados da companhia estavam infectados com blenorragia (designação apropriada do termo de calão muito conhecido que dá pelo nome de esquentamento e que se reporta a uma infecção nos órgãos genitais).

Segundo ele, a penicilina não está a actuar em virtude do calor excessivo e da elevada taxa de humidade e, portanto, é necessário organizar uma reunião de esclarecimento com todos os soldados disponíveis.

Soube depois que o pedido a mim dirigido resultava,  afinal, do facto do meu pelotão ter a maior taxa de elementos infectados.
 [O pelotão de transmissões da CCS tinha 1 alferes, 3 sargentos, 9 cabos e 8 soldados].

Durante a tarde algumas pessoas conseguem dormir a folga, coisa que nunca consegui e ainda menos com este calor e esta humidade.

Eu, como todos os dias que não saio do aquartelamento, cumpri algumas tarefas burocráticas que a tropa, mesmo em guerra, não dispensa.

Mais tarde vagueei, uma vez mais, dum lado para o outro sempre com a sensação de estar encurralado, na ânsia de conseguir gastar o tempo que me falta para me livrar disto.

Por vezes ocorrem, no final do dia, momentos de alguma descontracção. Conversamos sobre a nossa vida na Metrópole e damos umas voltinhas de jipe.

Não tenho carta de condução, mas conduzo. Recebi umas lições do meu colega de quarto e desenrasco-me. De qualquer modo ninguém, nesta situação, está interessado em saber se tenho ou não carta de condução.

Já anoiteceu e partir de agora e até pegar no sono, o que acontecerá lá para as tantas da manhã, instala-se o medo e a saudade.

Eu, que sempre gostei da noite, juro-te que aqui odeio a noite. Estamos todos fartos de fumar, de beber e de jogar, mas a verdade é que estas actividades aliviam, de facto, o medo e a saudade.

Hoje é feriado [1º de Dezembro, dia da Restauração da Independência de Portugal, ] e a probabilidade de haver problemas aumenta. A malta está mais concentrada, fala mais baixinho. [No dia 28 de Maio de 1969, Bambadinca tinha sido atacada em força.]

A questão do medo é surpreendente. Há camaradas que parecem não ter medo nenhum. É como se estivessem em casa ou numa esplanada e, mesmo debaixo de fogo, funcionam normalmente.

Depois, talvez a maioria, tem imenso medo, mas mercê de um enorme esforço consegue controlar a situação (julgo que me enquadro neste grupo).

Finalmente há camaradas, alguns deles aparentemente corajosos, que em quase todas as situações, entram em pânico total e que precisam sempre de ajuda. São obviamente os que sofrem mais, quer durante a situação, quer sobretudo pela vergonha que sentem depois.

Tenho saudades de tudo na metrópole: das pessoas, das ruas, dos jornais, da rádio, dos carros e até dos comboios que aqui não existem.

Quanto a ti, meu amor… Acredita, nunca imaginei que a saudade que sinto de ti me provocasse tamanha dor física. Dói-me a cabeça, dói-me as pernas, dói-me o peito… enfim dói-me tudo.

Sei que estou desesperado, mas não resisto a dizer-te que dava anos da minha vida, se é que os vou ter, para estar neste momento contigo.

São 8 horas da noite e a temperatura nesta altura é um pouco mais amena. Se calhar esta noite vou ter de pôr um lençol na cama, não vou transpirar a dormir, e… talvez tenha um sonho manga di bom.

Do teu para sempre,

Fernando.


[Revisão / fixação de texto para efeitos de edição no blogue; negritos e parênteses retos; título: LG]

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 30 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20191: (De) Caras (112): O aerograma de 1 de dezembro de 1969: "Meu amor, se calhar esta noite vou ter de pôr um lençol na cama, não vou transpirar a dormir, e… talvez tenha um sonho manga di bom"... (Fernando Calado, ex-alf mil trms, CCS/ BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70)

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Guinér 61/74 - P26961: In Memoriam (554): Algumas "histórias pícaras" do regresso a casa (Fernando Calado, ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70) (Ferreira do Alentejo, 1945 - Lisboa, 2025)


T/T Carvalho Araújo > Viagem de regresso Bissau - Lisboa > BCAÇ 2852 >Estuário do Tejo >  Ponte Salazar e Monumento de Cristo Rei > Chegada a 26 de junho de 1970.

Fotos: © Otacílio Luz Henriques (2013). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)




Documento da passagem â disponibilidade, passado em 19 de julho de 1970, pelo cmdt do RI 2, Abrantes. (Cortesia de Fernando Calado.)



T/T Carvalho AraújoO T/T : propriedade da Empresa Onsulana de Navegação. Tinha lotação para 354 passageiros. Foi abatido em 1973. Imagem extraída do sítio "Navios porugueses", que deixou de estare dispponível "on line". Estava alojada no Sapo.pt.




Fernando Calado (Ferreira do Alentejo, 1945 - Lisboa, 2025), 
ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70)


1.  O T/T Carvalho Araújo levou, no rgresso a Lisboa,  9 dias a fazer uma viagem que levaria cinco dias (em condições normais). Segundo o comandante em exercício da CCS/BCAÇ 2852, o alf mil trms Fernando Calado, o navio esteve parado em alto mar mais um dia, por causa de um tufão.

Recorde-se que o BCAC 2852 terminou a sua comissão, no Sector L1 (Bambadinca), região de Bafatá, Zona Leste   em finais de maio de 1970. Nos dias  29 e 31 de maio [de 1970] chegaram as forças do BART 2917, que vieram render o BCAÇ 2852,  começando-se assim a sobreposição. Durante esse período, as novas companhias de quadrícula [CART 2714, Mansambo; CART 2715, Xime; e CART 2716, Xitole] ficatram a conhecer as suas zonas de ação.

O BCAÇ 2852 tinha chegado a Bissau, quase dois anos antes, em 29 de julho de 1968.

Em 8 de junho de 1970, o BCAÇ 2852 deixou o Setor L1, indo para Bissau, viajando em LDG a partir diooXime, e aguardando entáo embarque para a Metrópole. O regresso a Lisboa, no velhinho  T/T Carvalho Araújo,inicou-se em 16 de junho de 1970. Aliás, não foi o batalhão, foi o comando e a CCS do batalhão, m
ais a CCAÇ 2404, do mesmo Batalhão (passou por Mansambo, fez algumas operações em conjunto com a CCAÇ 12).

O navio ficou um dia no Funchal, o que permitiu que alguns militares, em grupo, alugassem  táxis e fossem dar uma voltinha pela ilha. Foi o caso do Otacílio Luz Henriques, o "capinhas", que tirou "slides" de algums sítios madeireenses.

Acrescente-se que o Fernando Calado, foi nomeado comandante da CCS/BCAÇ 2852 (e não propriamente das tropas embarcadas), face à escusa do tenente SGE (Serviços Gerais do Exército), o nosso conhecido, açoriano, Manuel Antunes Pinheiro, o chefe de secretaria do comando do BCAÇ 2852. 

Explicação dada pelo Fernando Calado: não havia mais  oficiais do comando e CCS do batalhão (por o gen Spínola lhes ter posto um "par de patins"...).
 

2. Em pequena homenagem ao amigo e camarada "bambadinquense" que acaba de se despedir da "Terra da Alegria (`), vamos aqui recuperar e reproduzir livremente algumas peripécias que ele nos contou dessa viagem (**).
 


O  regresso a casa, do pessoal do BCAÇ 2852, no velhinho T/T Carvalho Araújo


(i) O Fernando Calado, no dia da partida do T/T Carvalho Araújo, esteve muito atarefado com as diligências e as burocracias do embarque, pelo que nem sequer tivera tempo de almoçar a bordo. 

O capitão do navio, pronto a partir, deu-lhe autorização para "em vinte minutos, meia hora, no máximo" ir ao “Pelicano”, ali ao lado, na marginal, comer qualquer coisa... Ainda se lembrava do prato que escolhera e de que gostava muito, "um bife de gazela com batatas fritas" (!)...

(ii) A caminho de Lisboa, o navio fez uma paragem no Funchal... Houve aproveitasse fora fazer turismo... Outros foram provar a poncha...Dois camaradas ficaram em terra a curtir uma “cardina”… 

No regresso, feita a recontagem do pessoal embarcado, faltavam dois militares… Seriam reencontrados a dormitar numa esplanada…(Não sabemos se eram da CCS/BCAÇ 2852 ou da CCAÇ 2404; também não sabemos se, sendo da CCS,  apanharam uma "porrada", mas  é pouco crível que o comandante, no final da comissão, lhe tenha estragado a vida.)

(iii) Outra peripécia: o Fernando Calado lembra-se ainda que teve de “acalmar” vários militares da CCS que vieram com blenorragias (“esquentamentos”), mal curadas... 

Alguns eram casados, um inclusive tinha-se casado por procuração (!)… O drama era saber o que é que iriam dizer às esposas que os esperavam...

Alguns, mais desesperados, batiam com os punhos na cabeça: “Mas porque é que não eu fiquei em Bissau?!”... 

O Fernando lá arranjou uma solução diplomática mas salomónica: quando chegassem a casa, os “entrapados” contavam a verdade, pura, dura e crua: ficavam à espera que a penicilina acabasse por surtir efeito… e que a "patroa" os perdoasse...

 Em suma, não era caso para se atirarem ao mar, infestado de tubarões... E, felizmente, havia já a "bala mágica", como a malta chamava à penicilina...E,. depois, as Marias também sabiam que "a carne era fraca"...

(v) Enfim, ele tinha prometido, no regresso a Lisboa, passar ao papel estas e outras memórias dessa algo rocambolesca e pícara viagem que, em vez de cinco, demoraria nove dias (de 16 a 25 de junho de 1970)... Por causa do tufão e da paragem técnica no  Funchal. Em boa verdade, até deu jeito aos "entrapados": tiveram quatro dias extra para ver acontecer o milagre da "bala mágica"...


Aqui fica um primeiro resumo. Infelizmente, o  resto fica para contar, pelo Fernando Calado, na nossa próxima tertúlia celestial...(Ainda não consergui falar com ninguém que tenha lá estado ou por lá passado, mas imagino que 0 sítio não deve ser nenhum hotel de cinco estrelas...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:

27 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26960: In Memoriam (553): O Fernando Calado (1945 - 2025) que eu conheci e com quem convivi na Casa do Alentejo (José Saúde, Beja)

27 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26959: In Memoriam (552): Fernando de Carvalho Taco Calado (Ferreira do Alentejo, 1945 - Lisboa, 2025), ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968-1970): foi gestor de recursos humanos e docente universitário

(**) Vd. poste de 25 de julho de 2020 > Guiné 61/74 - P21196: Os nossos regressos (36): Comando e CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70): foi há 50 anos, no T/T Carvalho Araújo, com algumas pequenas peripécias... (Fernando Calado)